Evidência, de Ingrid Araújo

Hoje (dia 27), o Gira SP inaugura a coluna Disparate Verbal da blogueira e jornalista Ingrid Araújo, espaço onde ela vai abordar semanalmente romances e nuances do comportamento sentimental masculino e feminino. Vamos ao Texto de estreia:

 

 

Evidência

Por que custamos em aceitar o óbvio?

Fui para o dicionário ver a denotação de uma palavra que me confronta nos momentos de dores crônicas do ego. O sentido que me atraiu foi o da elevação. Quando uma relação não anda boa faz tempo, nem é preciso diálogo e questionamentos intermináveis. É só olhar em volta,  desacelerar o passo e ouvir os burbulhos do vulcão do ressentimento do companheiro ao lado.

 Entendi que não é preciso muito esforço para perceber o óbvio que muitas vezes custamos acreditar. Em uma amizade é comum a aproximação por uma comodidade. Alguém que tenha um tempo a mais para te ouvir, ouvir seus lamentos, conversar com seus fantasmas, te levar a um passeio ou te ajudar a empilhar os discos antigos que ganhou na infância, numa tarde chata de sábado. Você entende, retribui com o que sabe e imagina que na mente dele está tudo numa boa.

Eis o fatídico engano. A convivência é saudável, mas como todo investimento, uma amizade também traz riscos. E o primeiro deles é de ser mal interpretado. Embora haja verdade da sua parte, para o outro suas atitudes de uma hora para outra podem valer menos que 50 centavos. Triste, mas acontece. E procuramos entender onde foi que o outro fez a ideia errada do seu eu certo.

Todos, cada uma em uma medida e etapa distinta da vida, aprende a ouvir e ajudar o próximo. Alguns retribuem seu companheirismo mais rápido. Outros talvez nunca vão agradecer. E você segue quebrando um galho, rindo junto,  oras cedendo e se impondo. Acostumamos o amigo a sempre ter o nosso melhor e nos sentimos confortados quando ele nos acolhe.

O maior entrave é quando esse amigo do peito fez você se tornar possessão dele, ou uma espécie de propriedade exclusiva. Suas amizades antigas não são bem vistas e o que serve agora são os contatos e a história dele. Vive-se uma espécie de ostracismo a dois.

Tive uma experiência parecida quando comecei a frequentar novamente a casa de uma grande amiga que me conhece desde a infância. Sempre bem receptiva e pronta para ouvir e até dar roupas novas que nunca tinha usado. Em uma época passava o dia todo lá. Convivia de verdade. Conheci os pontos fracos e  sua austeridade.

Chegamos a participar de grupos religiosos no mesmo lugar. Ela me acolheu antes que caísse em uma depressão profunda. Saí desse universo melindroso sem a ajuda dos remédios. Agradeci muito a ela. Mas chegou um tempo que percebi que a tamanha proteção gerou um laço de moralismo e controle que era colocado em minhas faculdades mentais.

Após discussões dolorosas e dos vulcões em ebulição entre nós, fui concluindo que não valeria a pena depositar tanto tempo e disposição em uma relação doada, porém cobrada. É paradoxal rotular assim, mas faz sentido quando um das partes  publica seus defeitos e joga suas latrinas existenciais no ventilador das redes sociais depois de um momento de insatisfação.

Procura-se repaginar atitudes por esta pessoa. Pensamos duas vezes e lembramos do passado dela dito por quem a conhecia antes. Evidenciamos através do discurso daquele círculo de amigos que agregamos. E então constatamos que a verdade em segundo plano, a dura realidade insana daquele amigo nunca deixou de existir.

Fato é que o prestígio desaparece e o desamor toma conta da cena em que a reciprocidade sem mágoas poderia habitar. Pensamos na angústia dele mas já não somos mais capazes de agir com tamanho altruísmo e deixamos o compasso da existência ditar o ritmo dessa relação.

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