Em Tempos de Amores Virtuais, crônica de Ingrid Araújo

Semanalmente, o Gira SP publica a coluna Disparate Verbal, da blogueira e jornalista Ingrid Araújo, que une crônicas e reflexões sobre neuroses sentimentais. Vamos ao texto:

 

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Levamos nosso cotidiano sem graça e a internet se encarrega de colocar a purpurina (Reprodução)

Em tempos de amores virtuais

a conexão é feita por cliques

“Te amo mais que tudo nessa vida”. Esta foi uma parte da mensagem de texto que por li por acidente no celular de um rapaz que sentava na minha frente no ônibus que me levava para casa. Pessoas que se gostam demais tendem a ter este tipo de atitude. Nada mal para quem descobriu o significado da paixão há pouco tempo. Tenho percebido também a facilidade com que as pessoas se relacionam virtualmente. Desenvolvem assuntos muito melhor do que se fosse num diálogo cara a cara. Isso  no primeiro instante me assusta.

Desci daquele coletivo com uma indagação na mente: Será que aquele moço de cabelo cheio de mechas claras deseja conversar para caramba com a destinatária daquela mensagem? A vontade de vê-la ou tocá-la se ilustra numa ligação pelo menos, ou é ainda mais cômodo só mandar recadinhos e pensar que está tudo bem?

Já escrevi sobre a aversão dos homens ao telefone. É um post à parte que pode ser lido no meu blog pessoal. Porém a falta de vontade deles não justifica a ausência. Quem gosta liga, procura, atazana. Enche a vida do outro de sentido se for correspondido e a memória do telefone de mensagens melosas. É bom. Dá ânimo, a gente se sente importante. Enfim, são lances da autoestima sentimental que cada um tem dentro de si, em porções fracionadas e extremamente particulares. Evoluem e se exprimem como um vírus qualquer em reação a um antídoto chamado correspondência de sentimentos.

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Em tempos de amores virtuais, está ficando cada vez mais comum declarações nas timelines do Facebook (Reprodução)

Em tempos de amores virtuais, está ficando cada vez mais comum declarações nas timelines do Facebook. Retweets de ideias românticas para o parceiro, imagens e gifs que lembrem felicidade sem fim a dois são o assunto primordial dos apaixonandinhos. Parece o correio elegante das festas juninas. Somos carteiros enlouquecidos por mandar dizeres melosos para provar a atenção do outro. Mas o que fazemos por ele fora das redes sociais?

Me assusta a ideia de ver cada vez mais casais se dando bem melhor pelo Facebook do que pessoalmente. Muitos casais que conheço quebram o pau por motivos banais quando estão juntos. Probleminhas que surgem pela ausência de um sujeito ou verbo bem colocado numa frase verbal. Atropelam o português, economizam palavras e no final jogam a culpa no outro. Para isso tenho uma recomendação. Se os sintomas persistirem, chamo um médico para o estressadinho, mas não dou uma de terapeuta ou assistente social. Saber verbalizar ideias e sentimentos ainda é o melhor parâmetro para basear uma relação.

Uma amiga minha no trabalho ficou doente há alguns dias e relatou o perrengue que o namorado passou do lado dela. Até dar banho nela ele deu por conta de uma gripe que a deixou indisposta e quase inconsciente por dois dias. Ele trocou a roupa, limpou o nariz dela, fez comida e até deve ter lavado calcinha também. O nome disso é amor, e dos mais sinceros que já vi. Retratos de uma convivência que podem decidir se ela ainda escolherá o rapaz como marido. Isso se ela achar necessário. Se a resposta for sim, garanto que aquele paulistano passou  no teste.

Muita gente imagina e até aposta nos sites de relacionamentos para conseguir um parceiro. No meu ponto de vista é a maior bobagem que se pode existir mesmo em tempos em que a internet vende facilidade para tudo, até para corações desesperados. Triste pensar que uma geração inteira de adolescentes e jovens escolhem pretendentes pela roupa que vestem e postam na vitrine particular da rede virtual. Fazer check in do último restaurante que foi com a namorada nova para fazer inveja para a ex deprimida. Levamos nosso cotidiano sem graça e a internet se encarrega de colocar a purpurina.

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Triste pensar que uma geração inteira de adolescentes e jovens escolhem pretendentes pela roupa que vestem e postam na vitrine particular da rede virtual (Reprodução)

Atitudes virtuais não preenchem nossa verdadeira falta de contato, olhos nos olhos, e até os dedos que te apontam criticando quando você comeu doce demais. É bem melhor ouvir as repreensões sinceras do amigo ao lado do que a mensagem sem gosto do amigo virtual que curte quando você escreve que acabou de fazer uma burrada. Nosso apoio moral está reduzido ao botão “like” do Facebook. Pelo menos não deveria. Em tempos de relacionamentos “sociodigitais” assusta a ideia de ter se conectar para se sentir percebido.

Essa regra, no meu ponto de vista deveria se adequar no nosso cotidiano sentimental. Ligar mais e fazer mais questão ainda de ver a pessoa que ama pessoalmente é uma tentativa de driblar as exigências da vida virtual. Desconectar-se faz bem, visitar aproxima e  também sugere, para aqueles que procuram uma aventura amorosa, um mundo cheio de oportunidades.

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