O Buquê do Noivo, crônica de Ingrid Araújo

Semanalmente, o Gira SP publica a coluna Disparate Verbal, da blogueira e jornalista Ingrid Araújo, que une crônicas e reflexões sobre neuroses sentimentais. Vamos ao texto:

“Amor mesmo não se escolhe, acontece” (Foto: Reprodução)

O buquê do noivo

e  a vontade deles em se casar

Entramos no mês das noivas. Maio traz um friozinho ameno na pele e na barriga de muitas garotas que decidiram juntar tarifas de cartões de crédito e as escovas de dente. As mulheres absorveram desde o tempo em que tinham interesse pelas bonecas o desejo de ter um cônjuge. Aprenderam a projetar a felicidade pessoal para dentro de um relacionamento. Já compram a prazo o passaporte para esta etapa que a vida oferece, assim como fechar o negócio de um apartamento ainda na planta. Um investimento alto, a perder de vista, mas que compensa depois.

Aos 15, as garotas já rascunham o ideal de um homem. Para a maioria, dividir cobertor com estereótipos movidos à gasolina e perfume importado é o ápice da existência. Diante de amadurecimentos e decepções, o filtro de seleção natural feminino derruba vários critérios e convence as então moças, a escolher um cara gente fina, que passe um tempo na TV ao lado delas ou no carro conversando. Se bem que amor mesmo não se escolhe, acontece. É quase como namorar o melhor amigo. Mas este enredo é um assunto à parte em outra coluna.

Elas empenham-se em produzir a festa e equilibrar o buquê e o véu na passarela. A celebração do casório é agitação, correria, adrenalina correndo solta quase acompanhando o vento que levanta a toalha das mesas da chácara do buffet. É preocupação pura pensar se a chefe lá da firma vai falar bem do prato principal. Medo de faltar bem-casado ou da música marcante do namoro travar bem na hora que você, moça fina, recatada e hoje no manequim 38, entrar em cena.

Estive pensando no simbolismo deste evento. O buquê, vestido e véu categoricamente são femininos.  A noiva é o centro das atenções. E o noivo? coadjuvante. E por falar em representação, qual adereço tem a ver com eles? Nem sei. Homens, diferente de nós, não sonham em se casar tão cedo. Quando começam a pensar a respeito geralmente foram induzidos por circunstâncias eminentes, paixões avassaladoras, ou pura experimentação.

Eles se casam por uma razão. O motivo que os levam a comparecer no cartório às vezes, é minimamente prático. Dividir gastos e tarefas domésticas com a namorada que não parava de frequentar a casa dos pais dele. Ele já a conhecia e não via suspense nenhum em chamá-la  para o “sim”.  Os rapazes na faixa dos 20 tendem a firmar esse compromisso com mais adrenalina e intrepidez, mesmo conhecendo parcialmente. Esses são práticos, têm pressa, mas podem se meter numa enrascada como os rapazes descritos pelo jornalista Ivan Martins, em Aquele casamento ruim.

Meu pai mesmo nem saiu de casa para conhecer minha mãe. Penso que as melhores propostas sentimentais te surpreendem, assim como quando ele chegou do trabalho e encontrou minha mãe sentada no sofá da sala dele discutindo salário mínimo e religião com um dos meus tios.  O namoro começou em semanas e o casamento em um ano. Foi rápido. Os homens, ao contrário das mulheres, não demoram em escolher suas parceiras. Isso é um indício que critério demais atrapalha a percepção da essência do outro.

A maioria dos meus amigos homens noivou em questão de meses. Alguns escolheram a mulher da vida deles após momentos de fossa que eu particularmente os invejo pelo tempo mínimo recorde que eles permanecem.  Não perderam tempo com baixo estima ou procurando imperfeições nas parceiras. Eles optaram pelo pacote prático, sensível, cheiroso e multitarefado que muitas de nós somos. Penso que eles merecem um prêmio pela tranquilidade deles em encarar um relacionamento. Que seja então um “eu aceito”.

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