Ricardo Gali e companhia arriscam-se ao misturar Dança e Psicologia

Sob o Risco e Sobre o Risco dos Perversos

Ricardo Gali e companhia arriscam-se ao misturar Dança e Psicologia

Por Rafael Ventuna*

Em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso hoje e amanhã (dias 26 e 27), o espetáculo Imagem-Nua e Outros Contos, da Cia. Perversos Polimorfos, é um trabalho pretensioso. Na improvável queda de braço entre Dança e Psicologia, ganhou a Dança.

Quando se lê a sinopse do trabalho que relata o mergulho da companhia no universo dos contos de fada, sob a orientação do psicanalista Eduardo Bittencout e acompanhada da leitura de textos de José Gil e Bruno Bettlheim, o leitor pode ter a nítida sensação que verá em cena uma representação caricata de todas aquelas personagens que habitam nosso imaginário coletivo quando ouvimos o termo “conto de fadas”. Aí, esse leitor se encontra sob o risco do perverso aprisionamento estético-literário.

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Foto: Fábio Furtado/Divulgação

O diretor Ricardo Gali propõe então um exercício de limpeza do lobo frontal, importante área do cérebro, onde inclusive ocorre o pensamento abstrato. Esse exercício se dá em dois atos ininterruptos. No primeiro, quando inicia a coreografia, os bailarinos transitam de um lado a outro sobre uma superfície branca, melhor dizendo, uma página em branco. O vai e vem dos bailarinos acaba por ir “riscando” suas próprias linhas imaginárias, de um conto imaginário, de qualquer ordem psico-lógica.

O instigante movimento inicial e silencioso, que dura mais de dez minutos, chega a causar tédio e vertigem. Até que a sofisticada trilha de Dan Nakagawa, composta especialmente para o espetáculo, fica sobreposta ao esboço de partitura coreográfica que se desenha no palco. A sonoridade estimula uma diversidade imensurável de imagens (nuas ou não).

No que pode ser considerado o segundo ato, os bailarinos rompem com a dinâmica de deslocamento e passam a interagir. Os trejeitos apresentados no “primeiro ato” ganham desdobramentos e se pode identificar angústias, medos, desejos, anseios, enfim, tudo aquilo que nos conduz a nos movimentar de alguma maneira, seja cenicamente ou não. Com motivações fisiológicas ou psicológicas.

Imagem-Nua e Outros Contos tinha tudo para ser um espetáculo clichê. E não é. Em verdade, é um trabalho cheio de atitude e que questiona a Dança Contemporânea na sua forma e conteúdo. Fala-se muito em “tempo psicológico” em narrativas. Mas, o trabalho não é narrativo (apesar das referências literárias). É um Neoconcretismo revisitado, onde a novidade é um “cenário psicológico” que reconstrói uma mente barulhenta e atordoada. Uma mente contemporânea?

*Rafael Ventuna é jornalista e crítico, com especialização em Economia e Gestão de Bens Culturais pela Fundação Getúlio Vargas. É também pesquisador de Dança Contemporânea Brasileira.

Serviço:

Imagem-Nua e Outros Contos
Cia. Perversos Polimorfos
Dias 26 e 27, às 20h
Teatro Sérgio Cardoso
Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista
R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

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