Por que o Parque Augusta está fechado? Entrevistamos os ativistas do OPA para saber mais

Ativistas do OPA • Reprodução facebook

Ativistas do OPA e do Parque Gomma • Reprodução Facebook

Por Zeca Bral

Era uma segunda-feira à noite quando cheguei na Praça Roosevelt para uma assembléia pública organizada pelo Organismo Parque Augusta (OPA), um entre outros grupos que estão encabeçando a luta pela abertura do parque, um terreno com cerca de 25mil m² entre as ruas Augusta, Caio Prado e Marquês de Paranaguá, na região central de São Paulo.

Justo eu que nunca estive numa reunião de condomínio nestes 6 anos que divido um apartamento com amigos, me vi no meio de um debate exaustivo em torno do uso do espaço coletivo da última área verde do centro da minha cidade natal embalsamada no concreto.

O enrosco em torno do tema se deve ao embate de forças de grupos de iniciativa popular em defesa do Parque Augusta, com respaldo do Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) e Prefeitura, frente ao interesse das incorporadoras Setin e Cyrela, atuais proprietárias do terreno, que querem construir duas torres de apartamentos com 100 metros de altura no local utilizando 20% da área do terreno.

Embora o prefeito Fernando Haddad tenha sancionado em dezembro passado lei que permite a criação do parque, a área segue fechada com cadeados e vigilância permanente de seguranças há quase 100 dias.  Entre arquitetos, urbanistas, designers, artistas e moradores da região, o OPA conta com 84 membros no grupo do facebook e mais de 12 mil fãs em sua fanpage. Naquela noite, 30 ativistas estavam presentes celebrando a criação do site do organismo, definindo datas de eventos e manifestações, distribuindo tarefas, além de se mostrarem insatisfeitos com a cobertura da Folha de São Paulo em uma reportagem publicada dias antes. Segundo a ativista Carol Borghetti: “devido à grande mobilização popular, (o Parque Augusta) tem ganhado visibilidade na mídia corporativa, mas percebe-se sempre a tendência a favorecer o projeto das incorporadoras”. Claudia Medeiros, outra ativista, emenda: “a grande imprensa não tem interesse em informar, mas sim vender. Isso reflete nas notícias que se simplificam a nenhum conteúdo relevante”.

Decidimos então fazer algumas perguntas para todos os membros do grupo do organismo no facebook, pois não faria sentido eleger apenas uma voz ou outra do organismo, já que sob o princípio da horizontalidade o movimento se declara sem liderança. A seguir estão as respostas que alguns ativistas deram ao GiraSP, confira.

GiraSP • Por que o Parque Augusta está fechado?  

Claudia Medeiros - O Parque está fechado por ser ainda um terreno privado, embora tenha sido sancionado como Parque no final de dezembro de 2013, mantém-se fechado para o público arbitrariamente, pois existe uma servidão de passagem que daria acesso ao bosque que é tombado. É a ultima área de mata nesta região da cidade.

Ana Claudia Banin - O principal motivo de o acesso ao bosque estar fechado, na prática, é evitar que o terreno cumpra a função social de parque mesmo antes de o próprio parque existir, pois isso reforça a argumentação e necessidade latente em torno da viabilização do parque público. Mantendo os portões fechados, os proprietários tentam enfraquecer a mobilização pública, usando os portões como arma política para reforçar a intenção de construir as torres no local e ganhar com a especulação imobiliária.  

Carol Borghetti – O Parque Augusta está fechado desde o dia 29/12/13 porque, embora sancionada a lei que prevê a criação do parque, o terreno é privado (e tombado) e ainda não foi desapropriado. Há um imbróglio judicial entre os proprietários atuais e a Prefeitura.  

Débora AoniPor causa do (podre) poder do dinheiro, da hipocrisia, especulação imobiliária e total falta de bom senso dos governantes dessa cidade. sem falar na falta total de respeito com o meio ambiente (a meu ver, o problema mais sério de todos).

 

Assémbléia do OPA • Reprodução Facebook

Assembléia do OPA na Praça Roosevelt em 17 de março • Reprodução Facebook

GiraSP • Qual é a proposta do OPA?  

Claudia - Um Parque floresta 100% verde, permeável, um Parque autogerido, um Parque Processo, um espaço de aprendizado e respeito.

AnaNossos objetivos seguem três linhas temporais, de curto, médio e longo prazo. Curto: portões abertos já. Médio: viabilizar o parque público, em 100% do terreno, onerando minimamente os cofres públicos (de preferência sem onerar em nada). Longo: projeto de autogestão para o parque.

Gustavo Galassi100% parque e 100% permeável, livre do uso de concreto, plásticos e asfalto.  

Débora - 100% verde; autogestão da população lá dentro; desapropriação.

GiraSP • Como a grande imprensa tem lidado com este tema?

ClaudiaA grande imprensa não tem interesse em informar, mas sim vender. Isso reflete nas notícias que se simplificam a nenhum conteúdo relevante.

GalassiA grande imprensa despreza por motivos obscuros a real verdade de todos os movimentos de forma a gerar um grande público sempre encabrestado e distante da realidade. A mídia corporativa em sua cegueira não percebe que parques e áreas verdes são pontos a favor de sua especulação na medida que todo imóvel próximo desses lugares possuem mais valor só pelo fato de existir próximo e isso evidência no caso Parque Augusta de as construtoras não quererem largar o osso. Lembrando que perder área livre verde é um processo irreversível no centro de São Paulo.

DéboraFavorecendo as incorporadoras e tentando nos colocar em um nicho de ‘causa classe média’, o que não estaria mais longe da verdade. meio ambiente, poluição, aquecimento global não é ‘causa classe média’, é causa mundial!  

GiraSP • Vocês vêm alguma relação entre os rolezinhos, a iniciativa de murar o vão livre do Masp pelos seus gestores e os portões fechados do Parque Augusta?

ClaudiaA relação é clara. Os rolezinhos são de certa forma a transgressão de regras impostas a uma população que é constantemente marginalizada em um país onde a educação pública foi sucateada. A construção de muros sejam eles reais ou a partir de proibições incita o desejo de ultrapassá-los. Essa construção é para mim uma tentativa desesperada de uma elite equivocada que tenta privar os cidadãos ao direito à cidade, à liberdade, à mobilidade.

GalassiIsso é algo como querer controlar a água de um rio com as mãos.

Carol  – Essa aqui é reflexiva, hein…

Débora - A relação é: dinheiro manda acima de tudo e todos, mais repressão.

AnaTodos eles podem ser entendidos como expressões e efeitos diretos das contradições de um sistema vistos no âmbito da cidade. Estas contradições permeiam o cerceamento dos espaços públicos, que passam cada vez mais a servir apenas como uma mera continuidade dos espaços privados, partindo da lógica deles e subordinados a eles, e dos espaços privados como pontos de exclusão e aglutinação de pessoas parecidas, em contraponto ao espaço público como ponto de encontro da diversidade e diferença, que deve comportar todos os tipos de manifestações.  

Além disso, são sintomas de como a nossa sociedade se coloca hoje – apesar de assumir ares de manifestação pública contra a discriminação sofrida pelos jovens negros e pobres da periferia nos espaços privados elitizados, os rolezinhos, na prática, são reivindicações do direito dos jovens pobres ao consumo diferenciado, muito mais que o direito de livre acesso a espaços da cidade. Eles almejam usufruir dos espaços e símbolos de status da nossa sociedade, se realizando no Ter mais do que no Ser.  

Já o MASP, apesar de ser um aparelho público, na forma como se configura é um espaço altamente elitizado e pouco aberto a expressões artísticas populares e ao acesso da periferia e de pessoas das classes sociais mais baixas à arte lá consagrada (O Theatro Municipal é outro exemplo). Ao mesmo tempo, do lado de fora, a arquitetura do prédio propicia um grande espaço de encontro e aglomeração de pessoas, livremente, servindo inclusive como ponto de mobilização para manifestações de rua diversas, seja como ponto de partida ou ponto de chegada. O fato de o que ocorre dentro não dialogar com o que ocorre fora gera a contradição que permite que se tente fechar o espaço externo, assim como o espaço interno já se encontra simbolicamente e ideologicamente fechado.

 

Projeto das incorporadoras e projeto do OPA • Reprodução Facebook

Projeto das incorporadoras Setin e Cyrela e o projeto do OPA • Reprodução Facebook

GiraSP • O movimento tem encontrado abertura para o diálogo com a Prefeitura? Existem políticos aliados a esta luta?  

ClaudiaExiste algum diálogo, mas a meu ver caminha a passos lentos.  

Débora - Apenas alguns vereadores…

Carol –  …que compõe a frente de sustentabilidade.

Galassi - O diálogo acontece na mesma desculpa azeda da falta de recursos para desapropriação, demonstrando ambiguidade com a Lei Parque Augusta e o próprio plano diretor que hoje está em vigor determinando 100% do local como de Utilidade Pública. A própria Lei Estatuto da Cidade que garante o Direito à Cidade é rasgada sem cerimônia.  

AnaApesar de nossos esforços constantes em cobrar um posicionamento oficial da prefeitura sobre a causa, não tivemos até este momento uma resposta clara, direta e concreta no sentido de apontar o caminho que a Prefeitura quer seguir a respeito do parque. Já ouvimos mais de uma vez que, apesar de entenderem como importante, a sustentabilidade não é prioridade nesta gestão, frente às questões sociais urgentes que se colocam na cidade.  

Temos tentado abrir diversas frentes de diálogo com o poder público municipal, e apenas recentemente conseguimos retorno. Na Câmara Municipal, temos como interlocutores os vereadores Nabil Bonduki e Ricardo Young, e estamos engajados em propor mudanças no Plano Diretor da cidade que beneficie a questão dos mais de 130 parques que podem ou não surgir, dependendo do posicionamento desta Casa. Na Prefeitura, abrimos diálogo recentemente com a Secretaria de Direitos Humanos, que tem agora como tarefa agregar as demais secretarias e órgãos envolvidos no debate a respeito das possibilidades de ação para a abertura dos portões e e viabilização do parque.

GiraSP • Pelo andar da carruagem, quando o Parque Augusta estará finalmente aberto para a população? Alguma perspectiva?

ClaudiaEu sinceramente não sei. O desejo que se torne realidade é grande, as perspectivas, difusas.

AnaÉ problemático colocar uma perspectiva temporal, pois ela depende diretamente de fatores que não dominamos, principalmente a vontade e ação do poder público para desapropriar o terreno e viabilizar o parque. Pretendemos que aconteça o quanto antes, e faremos todas as pressões e articulações necessárias para que este sonho se torne realidade.  

GalassiDependerá da mobilização da população para defender o que lhes pertence, afinal a cidade não pode ser vista como latifúndios.

 

A ativista aposentada Ana Dulce Pitan Maraschin, 80, é considerada a musa do movimento

A ativista aposentada Ana Dulce Pitan Maraschin, 80, é considerada a “musa” do movimento • Reprodução Facebook

GiraSP • Nesta segunda, dia 31, haverá um primeiro ato em nome de todos os parques ameaçados de São Paulo. Qual a participação do OPA nesta manifestação? A tendência é expandir este movimento para toda a cidade?

ClaudiaEstamos nos organizando para sermos uma semente viva que se espalhe pela cidade, pelos Parques, áreas verdes, para uma consciência ambiental, de respeito a natureza e a nós mesmos assim como às gerações futuras.

DéboraO Parque Augusta representa uma causa maior, de todos os parques, da saúde da cidade, do bem estar de todos nós. Claro que vamos apoiar qualquer ato que defenda qualquer parque, qualquer natureza de São Paulo. Portanto, a tendência é expandir sim.  

AnaO movimento de expansão da causa do Parque Augusta para a cidade é um movimento natural, pois a causa nunca foi apenas um parque. Nossa causa é transversal a questões como sustentabilidade, ressignificação dos espaços públicos e privados da cidade, por uma nova forma de viver e experienciar os espaços, mais do que apenas usá-los, a luta contra a especulação imobiliária e gentrificação, e contra a lógica de mercado sobreposta às relações humanas.

Ação do OPA pela abertura do Parque Augusta • Reprodução do Facebook

Ação do OPA pela abertura do parque no Buraco da Minhoca • Reprodução do Facebook

 

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1 Comentário

  1. 26 de maio de 2014

    […] segundo álbum  ”Nave Manha” (2012), eles toparam dar um parecer para o GiraSP sobre a luta que se trava pela libertação do Parque Augusta, afinal algumas de suas letras fazem referência à São Paulo; em “No […]

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