Recorte impreciso d’O Boticário na Dança em tempos de absolvição política

Por Rafael Ventuna*

 

Termina hoje (dia 4) a segunda edição do festival internacional O Boticário na Dança. Em São Paulo, a companhia Batsheva, de Israel, realiza uma apresentação gratuita de “Decadance”, às 18h, na área externa do Auditório Ibirapuera. A meteorologia prevê tempo aberto e temperatura agradável (18°C a 27°C), o que indica alta probabilidade de incidência de piqueniques no gramado do Parque Ibirapuera.

Em 2014, o festival fica marcado por um recorte impreciso de sua programação, que prometeu (e ficou apenas na promessa) “oferecer ao público brasileiro o que há de mais belo, inovador e contemporâneo no cenário mundial”. No entanto, o que O Boticário na Dança tem de mais surpreendente é a dose cavalar de injeção de ânimo no campo da Dança em tempos de absolvição política. Isso o seu público e a organização pouco comentam.

O mercado de Dança brasileiro – entendendo-se mercado como espaço de trocas simbólicas, informações e recursos –, por ser tão múltiplo, sofre de crônica desarticulação política, em esferas locais, regionais e nacional. A esta desarticulação somam-se a deficiente educação política (orientada para governabilidade) e o “autossentenciamento” de absolvição política. Autossentenciamento que pode ser resumido na expressão “eu não tenho nada a ver com isso”, profeticamente explicada na canção de Toquinho e Vinicius de Moraes.

Batsheva (Foto: Gadi Dagon)

Batsheva (Foto: Gadi Dagon)

Com um Estado incapaz de lidar com as demandas do setor cultural (e inúmeros outros setores como infraestrutura, saúde e educação) e com uma sociedade civil despreparada para influir em processos da máquina pública, não é admirável que a iniciativa privada encontre uma excelente oportunidade de implementar seu posicionamento de marketing cultural para o desenvolvimento de uma estratégia comercial. Foi o que a indústria de perfumaria e cosméticos O Boticário fez. E fez mais.

Com o suporte operacional da produtora carioca Dueto Produções, o Grupo Boticário, com sede no Paraná, lançou no ano passado o programa O Boticário na Dança, que inclui o patrocínio de companhias, eventos e publicações de dança. Segundo o programa, são 14 Estados brasileiros contemplados na primeira seleção de projetos, que juntos contabilizam 24 companhias, 12 festivais, duas publicações e um vídeo que serão patrocinados por meio de leis de incentivo estaduais ou federal, totalizando um aporte de R$ 5,4 milhões.

(Foto: Gadi Dagon)

(Foto: Gadi Dagon)

A edição inaugural do festival O Boticário na Dança, usando o incentivo fiscal federal, foi concluído com um orçamento de R$ 1,7 milhão, de acordo com dados divulgados pelo Ministério da Cultura. Em 2014, o festival já captou R$ 1 milhão e tem autorizada a captação residual de recursos no valor de cerca de R$ 2,5 milhões. O uso de lei de incentivo é destinação de verba pública com renúncia fiscal para fins de promoção e valorização da cultura, feitos até o momento com responsabilidade pelo Grupo Boticário, já que praticou preços acessíveis nas bilheterias das cidades que receberam o evento, com ingressos de R$ 10 a R$ 60, com a oferta de workshops gratuitos com profissionais das renomadas companhias que integraram a programação do festival e apresentações de acesso livre.

Atualmente, o programa O Boticário na Dança está com inscrições abertas para seleção de projetos de dança que pleiteiam patrocínio em www.oboticarionadanca.com.br até 15 de junho.

Recorte impreciso
No ano passado, a curadoria conseguiu oferecer uma carga de informação admirável. A presença de companhias como Hofesh Shechter Company, Peeping Tom, Maribor Ballet, Grupo de Rua e Shen Wei Dance Arts, nesta escala de importância, trouxe um verdadeiro “refresh” para quem vê, pesquisa e produz Dança Contemporânea no Brasil.

Porém, a segunda edição do festival não mostrou nada que rompesse paradigmas. Mas, em geral, conseguiu agradar o público paulistano. Tudo começou com o reencontro com a companhia de Akram Khan, que trouxe uma interessantíssima releitura de “A Sagração da Primavera”. O trabalho intitulado “iTMOi” traz uma possível interpretação dos pensamentos de Igor Stravinsky, que compôs a obra em 1913. O coreógrafo conseguiu um resultado estético que evidencia com excelente sucesso as agonias de um processo criativo, povoando a peça com personagens diversas, incluindo o próprio Igor e o fauno do Nijinski.

Louise Lecavalier foi outra grande alegria. Uma contradição, pois o trabalho apresentado chamado de “So Blue” tem como livre tradução “tão triste”. Louise conquistou fama e admiração pelo trabalho desenvolvido no La La La Human Steps, junto a Édouard Lock, em quase duas décadas. À frente do coletivo canadense Fou Glorieux, Louise demonstrou, acompanhada de Fréderic Tavernini, que está desvinculada da estética do La La La e provou que a Dança é um território que desconhece limites, especialmente para uma bailarina já não tão jovem, mas que possui uma rica bagagem e domínio corporal invejável. Além de ser uma mulher absolutamente contemporânea que incorpora em si um visual andrógeno.

Os chineses da TAO Dance Theater trouxeram duas coreografias, “4” e “5”, que apresentadas em sequência, deram uma noção exata do trabalho que desenvolvem. Com as esperadas influências de artes marciais, esmero nos recursos visuais e coreografias sendo desenvolvidas com lentidão, o que mais chamou a atenção foi a impecável iluminação, assinada por Ma Yue e pelo coreógrafo Tao Ye.

A Focus Cia. de Dança, do Rio de Janeiro, representante brasileira na programação paulistana do festival, dançou “Ímpar”, uma criação de 2010. Apesar da casa cheia, a noite foi a menos disputada. Há uma única razão que justifica uma ida ao teatro para ver este trabalho: o roteiro. Embora use o “clássico” recurso de ter o começo como fim (e vice versa), Alex Neoral conseguiu encadear as cenas de maneira não-linear, dando ao público a sensação de flash backs, exatamente como a nossa memória e atenção “furtivamente pulsam” hoje em dia, fazendo do presente aquilo o que ele sempre foi: um átimo.

O encerramento fica com a Batsheva Dance Company com a apresentação de “Decadance”, mix coreográfico criado para comemorar os dez anos da companhia que teve como primeira conselheira artística Martha Graham. A Batsheva veio ao Brasil com o elenco de sua companhia junior, a Batsheva Ensemble. Como a própria palavra “ensemble” adverte, o “Decadance” reúne coreografias assinadas pelo diretor artístico e coreógrafo  Ohad Naharin. É um mosaico de obras mais recentes, como “Three”, e de outras mais antigas e conhecidas do público paulistano como “Black Milk” (repertório do Balé da Cidade de São Paulo), “Virus” (dançada pelo Nederlands Dans Theater em 2007 no Teatro Sergio Cardoso) e “Minus 16” (que integrou o Programa B da turnê do Alvin Ailey American Dance Theater em 2013). O déjà vu foi certamente um incômodo para poucos. Porque os aplausos da noite de sábado anteciparam a grande ovação que o grupo receberá da plateia externa do Auditório Ibirapuera no último expediente dessa edição do festival.

*Rafael Ventuna é jornalista e crítico de dança, com especialização em Economia e Gestão de Bens Culturais pela Fundação Getúlio Vargas. É também pesquisador de Dança Contemporânea Brasileira.

Serviço:

Festival O Boticário na Dança
Auditório Ibirapuera (plateia externa)
Grátis
Dia 4, às 18h, Batsheva Ensemble

Duração: 70 minutos (aproximadamente)
Classificação: 14 anos

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