40 anos depois, Grupo Corpo dá o troco em moedas

Por Rafael Ventuna*

IMPORTANTE: NO FINAL DO TEXTO HÁ UM LINK PARA A CRÍTICA DE “SUÍTE BRANCA”, OUTRA ESTREIA DO GRUPO CORPO

O Grupo Corpo resolveu que é hora de dar o troco em moedas que a própria companhia cunhou e que recebe, a partir de agora, o nome de Dança Sinfônica, mesmo título da peça que encerra o programa em cartaz no Teatro Alfa até o domingo (23). De 3 a 7 de setembro, será a vez do Rio de Janeiro conferir a dupla estreia que também inclui Suíte Branca, assinada por Cassi Abranches.

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“Dança Sinfônica” é uma homenagem aos 40 anos do Grupo Corpo. Foto: José Luiz Pederneiras/Divulgação

Ao forjar cada moeda, a família Pederneiras une dança e música em um mesmo objeto. É cara e coroa. É inovação e tradição no manejo de riquezas que reforça o vínculo com o passado glorioso da era do ouro e o atual e pujante local de origem, as Minas Gerais.

E é com os preciosos metais encontrados lá que os experientes “ourives das artes” decidiram criar as moedas comemorativas dos seus 40 anos. Assim, foi reunida uma criativa e mineiríssima equipe, com Marco Antônio Guimarães, Samuel Rosa, Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, Skank, Uakti e Cassi Abranches – radicada em Belo Horizonte.

O negócio familiar dos Pederneiras há muitos anos tem como propósito um balé genuinamente brasileiro. Como outro lado da moeda, foram surgindo trilhas sonoras memoráveis pela criação ou seleção, podendo algumas delas ser caracterizadas como obras em si, dissociadas da dança.

Milton Nascimento, Tom Zé, Caetano Veloso, Lenine, José Miguel Wisnik foram alguns dos nomes que compuseram exclusivamente para o Corpo, que também já dançou sobre partituras de Ernesto Lecuona, Philip Glass, Haydn, Mozart e Bach, por exemplo.

A qualidade e excelência das trilhas sonoras selecionadas ou desenvolvidas sempre tiveram que acompanhar a complexidade e originalidade das coreografias. E vice-versa. Como o anverso e o reverso de uma moeda que somente juntos lhe conferem valor.

As moedas – ou seja, as peças do Corpo – vão se tornando cada vez mais valiosas e atraindo investidores. Este ano, a Petrobras celebra 15 anos como patrocinadora oficial. Além do mais, a companhia de dança consegue angariar, por meio de incentivo fiscal, uma quantidade significativa de apoiadores que se tornam, de certa maneira, acionistas.

O público consumidor comparece seguramente. Nenhuma outra companhia sustenta dez concorridas noites na mesma temporada em um teatro do porte do Alfa, com 1.110 lugares na sala principal (sem contabilizar as cadeiras extras!). A segunda semana começou com a venda de ingressos pela internet encerrada para paulistanos. No Rio de Janeiro, onde o Corpo se apresentará na sequência no Theatro Municipal, que tem capacidade para 2.361 pessoas, não há mais assentos disponíveis para compra na plateia e frisas, restando alguns poucos nas galerias e balcões.

O orçamento anual de patrocínios da companhia é milionário. Em “anos bons”, a arrecadação ultrapassou R$ 5 milhões apenas pela Lei Rouanet. O investimento retorna em produção e entrega de indubitáveis obras primas. Também merece crédito pelo raro fato de oferecer uma estrutura adequada de trabalho, onde 21 bailarinos têm como fonte principal de renda a dança. Ao todo, a empresa emprega 69 profissionais.

Ainda, o Corpo abriu várias frentes em mercados internacionais. É a companhia daqui que mais se apresenta no exterior e mostra como a produção artística brasileira está bem posicionada no ranking mundial.

Outra façanha, no campo da dança contemporânea, é a longevidade como corpo artístico estável de um empreendimento da iniciativa privada com atuação ininterrupta. Embora não seja o mais antigo do país entre as companhias independentes. Posto ocupado pelo Ballet Stagium, que está às vésperas de completar 44 anos.

Dançar para recordar
Em sua Dança Sinfônica, o Corpo faz uma homenagem aos principais players da jornada de quatro décadas. O cenário é formado por um gigantesco painel com 1.080 fotos. Este “álbum de retratos” também virou capa do encarte impresso e envolve simbólica e carinhosamente a programação histórica.

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Duo de Sílvia Gaspar com Edimárcio Júnior é ponto alto e aplaudido em cena aberta. Foto: José Luiz Pederneiras/Divulgação

Paulo Pederneiras transforma este painel em uma parede de tijolos à vista, reforçando a importância de cada pessoa-personagem e situação para a “construção” da companhia. O cenário também é uma reverência ao teatro enquanto espaço cênico. Paulo valoriza a caixa preta. Afinal, é para lá que se converge os esforços e as atenções.

A rotunda, que é o negro tecido que cobre o fundo do palco nos teatros, e a tradicional cortina vermelha aveludada deram figurativamente à Freusa Zechmeister o material para a confecção dos figurinos. Os bailarinos usam blusas e calças pretas. E as bailarinas, rubros collants. Exceto Sílvia Gaspar que veste um collant rosado tipo cor nude.

Sílvia incorpora e exalta outro elemento importante das artes cênicas, a iluminação. Seu duo com Edimárcio Júnior é uma cena de forte lirismo e beleza, onde a luz idealizada por Paulo e Gabriel Pederneiras entra na dança por meio do movimento dos canhões iluminados.

Dançando quase na penumbra, em ambiente ao estilo tenebrismo, o elenco apresenta uma interpretação uniforme que demonstra a emoção das comemorações, celebrações e homenagens propostas para a peça coreografada por Pederneiras.

Para tal empreitada, o compositor Marco Antônio Guimarães foi convidado para formar a quinta joint venture na história do Corpo. E criou uma trilha sonora irretocável e comovente, que foi gravada pela admirável Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, sob regência impecável de Fábio Mechetti. O Grupo Uakti também participou musicando os arranjos, com sua inigualável sonoridade característica, vinda dos instrumentos convencionais e não-convencionais que utilizam.

A sinfonia composta por Guimarães é uma paleta riquíssima de referências, indo a Bach e Vivaldi. Não poderia faltar evidentemente uma imersão no barroco e dele extrair até belas valsas. Apesar de ter uma estrutura melódica clássica, há uma oscilação que atravessa os tempos.

Guimarães faz citações de outras trilhas já criadas por ele para o Corpo e, em momentos de abordagem mais contemporânea, parece trazer à cena uma retumbante banda marcial, como se quisesse propor uma parada para ver passar as memórias da companhia.

É necessário inventar um adjetivo que se aplique à composição das doze danças sinfônicas de Guimarães, tamanha é a genialidade reunida em partitura.

Maturidade
Depois de tantos anos criando, Pederneiras aproveita para revisitar o próprio vocabulário e traz a respiração como movimento central em sua coreografia. A famosa movimentação requebrada, rebolada, espiralada e virtuosa dá vez à pulsação no ritmo da inspiração e da expiração.

Engana-se quem achar que é cansaço de um Corpo que chega aos 40. A respiração é para oxigenar, tomar fôlego para o próximo quarentênio. A companhia, que chega a 2015 consolidada e em alta no mercado, mostra vigor e capacidade inovadora de uma startup.

O corpo – elemento essencial e que até dá nome ao grupo – surge como a morada da performática arte da dança. Corpo, que por sua vez, habita o teatro, que, em diálogo com o cenário, tornou-se morada das memórias.

Ao decidir olhar para a própria trajetória e para os que fizeram parte dela, Pederneiras confirma uma definição que Vladimir Safatle tem para sociedade, pois, segundo ele, também pode ser interpretada como circuitos de afeto.

E, nesses circuitos afetivos, a família Pederneiras encontrou seus sócios, aos quais pode pagar a participação nos lucros na valiosíssima moeda que criou e colocou em circulação, a dança sinfônica.

Clique e leia também a crítica de “Suíte Branca”, do Grupo Corpo

*Rafael Ventuna é jornalista e crítico, com especialização em Economia e Gestão de Bens Culturais pela Fundação Getulio Vargas. Já publicou textos sobre dança no Terra, O Popular, Diário da Manhã, Jornal de Brasília e Gira SP, tendo feito cobertura de edições do Festival O Boticário na Dança, Temporada de Dança do Teatro Alfa, Goiânia em Cena, Porto Alegre em Cena, Paralelo 16, entre outros. É também pesquisador de Dança Contemporânea Brasileira.

Análise referente à apresentação do dia 12 de agosto de 2015 no Teatro Alfa em São Paulo. A estreia mundial da peça analisada foi em 5 de agosto, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

Grupo Corpo
“Suíte Branca” e “Dança Sinfônica”

São Paulo
Teatro Alfa
Quartas e quintas, às 21h; sextas, às 21h30; sábados, às 20h; e domingos, às 18h
Até 23 de agosto
R$ 25 a R$ 130

Rio de Janeiro
Theatro Municipal do Rio de Janeiro
3 a 7 de setembro
Quinta, sexta e sábado, às 20h; Domingo e segunda, às 17h.
R$ 60 a R$ 120

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5 Comentário

  1. Rita mendonça disse:

    bem, não vi suite branca nem dança sinfônica. Mas, depois de ler tantas observações acerca do grupo corpo, suas influências, propostas estéticas e parcerias, fiquei tentada!
    Como sempre, surpreendentes criticas! Quero conferir e tenho certeza de que não me decepcionarei!

  2. Tenho procurado acompanhar os grupos mais próximos, goianos, e não tenho me arrependido. Mesmo produções de baixo e baixíssimo orçamento, para mim, têm mostrado evolução e mostram que dispõem de riquíssima matéria prima. Com mais recursos poderiam estar circulando por aí e contribuindo de de forma grandiosa para o cenário da dança. As `análises` em voga são ricas e o texto flui com tal precisão que me sugerem espetáculos apetitosos quanto à cor, aos movimentos, à estética, aos sons e à música. Sinto vontade de assistí-los… aos dois…

  3. Val disse:

    Feliz 40tão ao Grupo Corpo! que percorra esta nova fase dos “enta” sempre com muito prazer, sucesso e a sensualidade que marca todas as apresentações! Belo texto!

  4. Tatá disse:

    muito importante prestigiar este impecável grupo que acompanho também há muito anos, faço minhas as suas palavras

  1. 26 de agosto de 2015

    […] Clique aqui e leia também a crítica de Dança Sinfônica […]

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