Galeria Leme apresenta nova exposição gratuita de Alexandre Brandão

Até o dia 26 de setembro, a Galeria Leme apresenta Chão,  segunda exposição individual de Alexandre Brandão na galeria, onde o artista apresenta uma nova série de trabalhos, dando continuidade à sua exploração e fascínio pela fenomenologia das matérias primas e a sua transmutação quase alquímica.

Se, em obras anteriores, Alexandre Brandão estudava a natureza impalpável da luz e as capacidades plásticas de materiais como açúcar, pedra, tinta e carvão, em Chão ele aprofunda a sua relação direta com as matérias primas que advêm, literal ou conceitualmente, da terra.

chao

Através de uma aproximação empírica e do uso de processos de tentativa e erro, o artista foi progressivamente alcançando um domínio técnico sobre estes materiais. Flertando com ferramentas e métodos de produção artesanal (sensíveis à transformação da matéria, seus tempos de secagem e suas mudanças na consistência e coloração), Alexandre Brandão desenvolve uma prática que muitas vezes se aproxima de uma proto-ciência, combinando utopia, processos físicos e químicos com um forte empirismo e intuição.

A recusa do racionalismo metódico dos processos científicos tem uma reverberação visível nas formas predominantes na exposição, na qual predominam formas arredondadas e sinuosas, com imperfeições que advém das próprias mãos do artista. Traços humanos impressos através de técnicas e práticas que se conectam a uma memória que se refugiou em gestos e hábitos, em aptidões transmitidas por tradições não-ditas e no auto-conhecimento inerente ao corpo.

Mas o artista não se detém na transformação da matéria prima em objetos escultóricos. O exercício elaborado por Alexandre Brandão questiona a própria natureza da matéria, decompondo-a para depois dar-lhe uma nova identidade, uma segunda-natureza. O seu ponto de partida é o que muitos consideram o objeto final. Ao invés de começar pela argila e misturá-la com água, o artista parte do tijolo, para depois destruí-lo e em seguida reordenar os seus restos dando-lhes uma nova identidade. Parte também do vidro, apenas para lhe retirar a sua característica fundamental, a transparência, reconfigurando-o com uma pele opaca feita de massa de vidraceiro, onde ficam impressos os traços de seus dedos.

Alexandre replica, à escala de suas mãos, um processo cíclico que se inicia numa ordem racional, para uma desordem provisória, que culmina numa reordenação e reconfiguração da matéria. Durante este processo de cíclica redundância, gasto de energia e trabalho manual, o artesão/homo-faber subitamente se transforma em artista/homo-ludens, criando artefatos mestiços, que falam simultaneamente de sua própria construção e desaparecimento.

Estes objetos e dispositivos, por mais que partilhem conosco o mesmo universo físico, carregam em si uma forte volatilidade, uma aparência instável de um croqui. São elementos que não se encerram somente em suas formas, mas apontam para algo além deles. Objetos num “estado vago”, que navegam entre uma funcionalidade perdida e uma re-funcionalização que momentaneamente escapa à nossa compreensão.

O seu entendimento requer a suspensão das nossas crenças e teorias, numa atitude que contraria o conhecimento pré-formatado das coisas do mundo. Pensar não é somente apreender a realidade através da razão, mas também refletir sobre o universo sensível que se apresenta aos nossos sentidos. É, neste sentido, retornar ao Chão, à origem. Voltar a um plano de conhecimento horizontal e atemporal que nos une sem diferenças e sem exclusões.

Serviço:

Chão
Galeria Leme
Av. Valdemar Ferreira, 130
Até 26 de setembro de 2015
De terça a sexta, das 10h às 19h; sábados, das 10h às 17h
Grátis.

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