Cassi Abranches faz “pálida” estreia como nova coreógrafa do Grupo Corpo

Por Rafael Ventuna*

IMPORTANTE: NO FINAL DO TEXTO HÁ UM LINK PARA A CRÍTICA DE “DANÇA SINFÔNICA”, OUTRA ESTREIA DO GRUPO CORPO

No teste aplicado por seu mestre Rodrigo Pederneiras para ser admitida como nova coreógrafa do Grupo Corpo, a paulistana Cassi Abranches supreendentemente deixou a prova em branco. E fez deste mesmo branco a matéria prima para sua peça Suíte Branca, que abre o programa comemorativo dos 40 anos da companhia em cartaz no Teatro Alfa até dia 23 e, em setembro, no Rio de Janeiro.

Rodrigo Pederneiras, Henrique Rodovalho e Deborah Colker e a jazz dance surgem como referências fortes de Cassi Abranches. Foto: José Luiz Pederneiras/Divulgação

Rodrigo Pederneiras, Henrique Rodovalho, Deborah Colker e a jazz dance surgem como referências fortes de Cassi Abranches. Foto: José Luiz Pederneiras/Divulgação

Chega a ser imensurável a responsabilidade de ser introduzida em tal cargo ao cativo e fiel público do Corpo, a maior referência da dança contemporânea no Brasil e que, ao longo de sua trajetória, se constituiu como uma das mais respeitadas companhias do mundo. Cassi emerge em um contexto de renovação. Pois, há 37 anos como único coreógrafo, Pederneiras sente a necessidade de, ainda em plena atividade, preparar sua sucessão.

Após passagem pela Raça Cia. de Dança, Balé do Teatro Castro Alves e do Balé Teatro Guaíra, Cassi integrou o elenco do Corpo por uma dúzia de anos. Deixou a carreira de bailarina em 2013 para se dedicar integralmente as suas próprias criações, iniciadas em 2009. Já coreografou, entre outros, para o Ballet Jovem Palácio das Artes, Cia. Sesc de Dança, São Paulo Companhia de Dança e até clipe de Marcelo Jeneci.

Ela nunca negou nem fez questão de romper com tudo que aprendeu com Pederneiras. Ele, que tem acompanhado de perto sua nova e promissora carreira, tem particular interesse em observá-la, seja pela afinidade estética entre os dois que se reforça a cada dia, seja pelo laço familiar – já que Cassi se tornou membro do clã artístico mais potente de Minas Gerais.

O empenho familiar e o profissionalismo jamais deram espaço ao nepotismo no grupo. Como exemplo, Gabriel Pederneiras, filho do coreógrafo e marido de Cassi, viveu uma saga até se tornar coordenador técnico. Hoje, ele assina a iluminação juntamente com seu tio, o também cenógrafo e diretor artístico Paulo Pederneiras.

Folha em branco
Embora a princípio a ocasião exigisse pompa, a família Pederneiras e a equipe criativa do Corpo optaram pelo caminho oposto: a simplicidade, a singeleza, a brandura, a palidez. Cassi recebeu uma folha em branco para começar a escrever um novo capítulo e fez uma monocromática e “pálida” estreia.

É evidente que ela fala a um público mais jovem e com menos repertório. Habilidade importante para alcançar as novas gerações. Além de Pederneiras, trabalhos de coreógrafos como Deborah Colker e Henrique Rodovalho saltam como referências. Cassi imprime coreograficamente uma estética do movimento mais ligada à produção estadunidense do que a europeia ou urbana e tradicional brasileiras. Memórias da jazz dance também aparecem com força.

Quanto aos bailarinos, Janaína Castro está bem à vontade e mostra que sempre topa qualquer desafio. Filipe Bruschi e Dayanne Amaral tentaram salvar com a simpatia o deslocado duo que dançam. O ponto alto, sem dúvida, é o solo de Andressa Corso (a bailarina de cabelos vermelhos), que está plena em cena – corpo, alma e coração.

Se Cassi tivesse encontrado a mesma sinergia que teve com Andressa no restante do elenco, certamente, teria feito uma explosão dentro da brancura. Mas, como confessou em entrevista, ela prefere viver um dia de cada vez.

Alvuras
Freusa Zechmeister elaborou um figurino que explora diferentes tonalidades de branco a partir de variadas texturas: transparência, tule e elastano. Algumas peças mais largas criaram volumes aos personalizados looks que os bailarinos usam, permitindo descolá-los do fundo e piso também brancos.

O cenário de Paulo está resumido a uma branca cortina amarrotada que cobre todo o fundo do palco. Com a luz criada por ele e por Gabriel, essa cortina vai se transformando em iceberg, rochedo, duna, nuvem, espuma, gesso, mármore, tecido, enfim, um sem fim de materiais. Esta transformação pela luz é uma verdadeira desacomodação do olhar.

Samuel Rosa é quem assina a trilha sonora. É a primeira vez que ele compõe especificamente para dança e fez um excelente trabalho. O músico também encontrou o melhor de dois mundos: chamou sua turma do Skank para viabilizar o que chamou de devaneios e transitou com liberdade e ousadia na paisagem sonora que entregou aos Pederneiras.

Rosa e Cassi se conectaram no que preferem chamar de atitude “rock and roll”, onde o novo pede espaço para conviver com o antecessor. Por isto, a trilha vem com inserções de sons bem brasileiros, tem belos acordes de guitarra e até faz ressoar lembranças das bandas Beirut, pela irreverência, e Radiohead, pela roqueira melancolia. É qualquer coisa bem diferente do estilo Skank que se ouve no rádio.

As músicas foram distribuídas em três sequências que transformaram a peça em um tríptico coreográfico. Como no Corpo a trilha sonora tem um papel mais-que-fundamental, é natural que um termo musical surja como título. “Suíte”, que é usado desde o século XIV para designar um conjunto de danças e sinfonias com mesmo tema, era o nome dado por Rosa aos arquivos que saiam do estúdio de gravação.

Branquíssimo
Cassi também adotou como estratégia a proposta de um espetáculo sem narrativa. Porém, injetou uma abundante dose simbólica e provocativa em bem sucedida dramaturgia. Desafiou os bailarinos a caminharem no ar por exemplo. E, diferentemente de Pederneiras, desenvolveu vasta movimentação dançada no chão.

Ela colocou em cena alguns recursos que reiteram a ideia de passagem do tempo, como o movimento pendular e as entradas e saídas de cena, promovendo uma cronologia não linear, que vai sobrepondo camadas e a tal ponto de não se permitir saber o que é começo, meio e fim.

Sem alarde, Cassi fez tombar os bailarinos-pilastras para que de uma maneira muito sutil a ideia de desconstrução seja paulatinamente introduzida a todos os integrantes da companhia. Afinal, ela precisa dar continuidade ao legado de Pederneiras e não simplesmente imitá-lo. E, se restava avaliação do público, está aprovadíssima!

Cassi se mostrou delicada como uma pluma e densa como mármore. Branco, evidentemente. Sua “Suíte Branca” aterrissa com leveza e sem pretensões. É como a branca neve que cai e logo cobre toda paisagem. E, ao derreter, há de revelar outras cores.

Clique e leia também a crítica de “Dança Sinfônica”, do Grupo Corpo

*Rafael Ventuna é jornalista e crítico, com especialização em Economia e Gestão de Bens Culturais pela Fundação Getulio Vargas. Já publicou textos sobre dança no Terra, O Popular, Diário da Manhã, Jornal de Brasília e Gira SP, tendo feito cobertura de edições do Festival O Boticário na Dança, Temporada de Dança do Teatro Alfa, Goiânia em Cena, Porto Alegre em Cena, Paralelo 16, entre outros. É também pesquisador de Dança Contemporânea Brasileira.

Análise referente à apresentação do dia 12 de agosto de 2015 no Teatro Alfa em São Paulo. A estreia mundial da peça analisada foi em 5 de agosto, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

Grupo Corpo
“Suíte Branca” e “Dança Sinfônica”

São Paulo
Teatro Alfa
Quartas e quintas, às 21h; sextas, às 21h30; sábados, às 20h; e domingos, às 18h
Até 23 de agosto
R$ 25 a R$ 130

Rio de Janeiro
Theatro Municipal do Rio de Janeiro
3 a 7 de setembro
Quinta, sexta e sábado, às 20h; Domingo e segunda, às 17h.
R$ 60 a R$ 120

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2 Comentário

  1. Dizem que os esquimós podem distinguir mais de 60 tons de branco… Lendo a ´análise´ de Suíte Branca, a palavra “pálida” no título, ainda que sugira um trocadilho, me confunde pois a abordagem de cada elemento desta Suíte me leva para uma realidade branca de inúmeras nuances… Quero ver…

  1. 26 de agosto de 2015

    […] Clique e leia também a crítica de Suíte Branca, do Grupo Corpo […]

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