Diretor italiano desafia Balé da Cidade a dançar sobre 18 toneladas de arroz

O quase cinquentão Balé da Cidade de São Paulo entra em cartaz no Theatro Municipal mais vitaminado do que nunca. A nova temporada com a estreia de Titã começa neste sábado (10) e vai até quinta (15). Desta vez, a companhia foi desafiada pelo diretor italiano Stefano Poda a explorar territórios nunca antes dançados.

Foto: Arthur Costa (Divulgação)

Foto: Arthur Costa (Divulgação)

A primeira novidade que não passa despercebida é a camada de 18 toneladas de arroz* que cobre totalmente o palco. Poda justifica que, ao invés de areia, decidiu usar a quirera em sua praia cenográfica porque os grãos são perecíveis e isto tem uma ligação direta com o tema da peça. “Arroz é semente não plantada”, define o italiano ao falar de promessas que não se cumprem.

O renomado diretor cênico faz um paralelo entre nossas lutas diárias e inglórias e a insistente construção de castelos da personagem interpretada por uma aluna da Escola de Dança do Municipal. Na peça, a menina sempre encontra sua obra destruída pela maré na noite anterior. “Tudo parece inútil. Mas, tudo vale a pena. Isto é Titã“, destaca Poda, um esteta incansável que assina ainda coreografia, cenografia, iluminação e figurinos confeccionados por João Pimenta.

Poda é muito exigente e organizado”, pontua a diretora artística Iracity Cardoso. A relação entre o italiano e o Balé da Cidade começou no ano passado, quando veio remontar o grande sucesso de público e crítica, a ópera Thaïs, cuja versão dele teve estreia em Turim, na Itália. “Ele insistia que os bailarinos eram o grupo mais importante da ópera”, confessa.

Daí, vem a segunda grande novidade. Poda não é coreógrafo. “Ele entende muito de movimento. E sabe o que quer”, adverte a diretora. “Não é um coreógrafo tradicional”, define. Iracity também revela que teve curiosidade em saber de onde vinha tamanha habilidade e competência para lidar com coreografias. “Um dia eu perguntei e ele me respondeu que era porque tinha trabalhado muito com [Rudolf] Nureyev“.

Os bailarinos também deram grandes contribuições a partir de improvisações durante os ensaios acompanhados pelo atento olhar do assistente Paolo Giani Cei. Poda também vê a equipe e elenco do Balé da Cidade como uma companhia especial na energia.

A terceira novidade da lista inclui a participação de Eduardo Strausser, regente da Orquestra Sinfônica Municipal. Em conjunto, Poda, Iracity e ele optaram por criar uma superprodução – com orçamento que ultrapassa R$ 500 mil – para a 1ª Sinfonia de Gustav Mahler, uma das partituras mais executadas mundo afora e cujo título é Titã. O fato é que essa sinfonia não foi pensada para um balé e os desafios para a orquestra seriam também titânicos.

“É uma obra grande em todos os sentidos”, define Strausser, explicando que ela inaugura aspectos que vai percorrer todas as dez sinfonias compostas pelo austríaco. Além disto, o regente destaca que exige uma performance virtuosa para todos os instrumentos e imprime elementos autobiográficos de Mahler, desde a infância a sua carreira como intérprete e compositor.

Seguindo em nossas anotações, a quarta novidade é trabalhar com todo o elenco de 34 bailarinos. Poda queria passar uma ideia de totalidade e, assim, expressar humanidade e diversidade. “Preciso de almas que tenham trilhado uma viagem. Das grandezas às mediocridades”, sublinha o diretor, que também pinçou referências na literatura de James Joyce e Marcel Proust. “Hoje tudo é acessível e fácil, mas perdemos o humanismo. Como Mahler fez na música, fazemos uma busca por razões profundas”, manisfesta o diretor diante de sua expectativa de que a plateia se reconheça na encenação.

Strausser dá pistas de que será bem possível este reconhecimento. Ao lembrar que Mahler era um incompreendido na sociedade vienense do século 19, o regente que comandará quase 100 músicos é taxativo. “A 1ª Sinfonia dialoga muito mais com nosso contexto social e político. O que torna a obra tão popular hoje em dia”.

A quinta e última novidade é que o Balé da Cidade não costuma apresentar uma única peça por noite. Titã tem programa exclusivo e os desafios também se completam porque, segundo o regente, a música não funcionará como trilha, mas como elemento condutor da dramaturgia. “Mais do que contar uma história, queremos despertar sensações e sentimentos no espectador de a acordo com a bagagem que cada um traz consigo”, anuncia Strausser.

Em um momento conturbado para todos os corpos artísticos do Theatro Municipal – devido investigações sobre desvios de verba por parte dos gestores da instituição e também pelo cenário de incertezas econômicas e políticas no Brasil, dançar sobre a instável superfície de arroz é mais do que uma metáfora. É a prova de que o impossível muitas vezes é possível. Apesar dos pesares e angústias, a força e a resistência do Balé da Cidade mostram quem de fato ele é em meio à crise, um Titã.

*Nota: o material utilizado é quirera de arroz, em geral, refugado para consumo humano, mas utilizado como ração animal. Após a temporada, o volume deve ser encaminhado a produtores/tratadores de animais.


Titã
Balé da Cidade de São Paulo
Orquestra Sinfônica Municipal
10 a 15 de setembro
Sábado, 20h; domingo, 17h; terça a quinta, 20h
Theatro Municipal de São Paulo
R$ 25 a R$ 90

Veja também!...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>