Peça do festival Mirada ilumina lado obscuro da vagina

De Santos*

Tenso. Com duração de 4h30min, Que haré yo con esta espada? (Aproximación a la ley y al problema de la belleza), dirigida pela catalã Angélica Liddell é uma profusão de denúncias contra a opressão milenar sofrida pelas mulheres, motivada desde o machismo à ditadura da beleza. Apresentada nesta segunda (12) e terça (13), em Santos, dentro da programação do festival Mirada, a peça segue para São Paulo, onde terá sessões no sábado (17) e domingo (18) no Sesc Pinheiros.

Foto: Christophe Raynaud de Lage / Festival D'Avignon (Reprodução)

Foto: Christophe Raynaud de Lage / Festival D’Avignon (Reprodução)

Em resumo, a personagem principal é uma mulher adulta com tendências homicidas que deseja que sua morte sirva para que a humanidade consiga fazer um grande feito: a instituição de uma nova lei que resolva os problemas causados pela beleza. Para isto, Liddell escolhe duas histórias atrozes e a espada do título se torna um símbolo fálico. Uma dessas histórias é o crime ocorrido em Paris do assassinato da jovem holandesa Renée Hartevelt, de 25 anos, em 1981, que foi morta, esquartejada e teve parte de seu cadáver comido pelo ex-namorado de 32 anos, o universitário japonês Issei Sagawa.

Na representação de Sagawa, três atores de origem nipônica entram em cena. Já a jovem assassinada, é representada por outras oito jovens atrizes loiras e de feições muito europeias. Contrapondo com o padrão estético de uma sociedade franco-caucasiana, Liddell também convoca uma atriz de traços asiáticos para representar o padrão estético de uma gueixa, rejeitado no palco pelos homens que representam o assassino de Paris.

Então, a pureza e beleza cândida é estraçalhada quando as jovens ficam nuas e começam a simular masturbação usando polvos mortos e sem cabeça. Cenas onde imperam referências ao canibalismo, zoofilia e escatologia – entre outras – vão dando lugar a uma denúncia sobre o alarmante e evidente risco do feminicídio. Todas as atrizes, incluindo uma de 80 anos, expõem seus corpos nus e suas vaginas. Uma espécie de apelo final para que o lado oposto (que é a perversidade masculina) perceba que a obscuridade da genitália feminina não abriga uma ameaça, mas um poço de medo e dor.

Sem precisar ir tão longe, vale lembrar que no ano passado, a gaúcha Gisele Santos, de 22 anos, teve suas mãos e pés decepados após uma briga com seu ex-marido, que alegou ciúmes como motivo do crime, lembrando muito o enredo do filme O Piano (1993), da neozelandesa Jane Campion.

No Brasil, além da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06) que prevê as punições em caso de violência contra mulheres, há a Lei do Feminicídio (Lei 13.104/15) que tipifica o crime como homicídio qualificado quando motivado unicamente pelo fato da vítima ter como condição ser uma mulher. Essa lei também mudou o artigo 1º da Lei 8072/90 do Código Penal, incluindo o feminicídio no rol dos crimes hediondos.

Para denunciar a barbárie e tentar jogar luz nas questões mais obscuras que envolvem crimes macabros contra mulheres, Liddell também usa uma paleta variada de referências artísticas e filosóficas, como o balé; a pintura La Danse, de Henry Matisse; citações de Friedrich Nietzsche; a versão de Chingon para a música Malagueña Salerosa, que imputa o sofrimento de um homem à beleza de uma mulher a quem a considera como uma feiticeira. A letra desta música é acompanhada pela exibição de imagens do corpo da jovem holandesa esquartejado. Se brasileira, a diretora certamente escolheria alguns funks bem famosos para substituir a canção que traz a misoginia musicada.

Outro crime que é colocado em pauta é o atentado terrorista, ocorrido na casa de shows Bataclan, em 13 de novembro de 2015, também em Paris. Mas, esta cena ganha um peso menor nos três atos que compõe a peça, intercalados por dois intervalos. Mas, que são igualmente potentes e eficientes no desmascaramento de grande parte das piores violências cometidas contra mulheres no decorrer dos séculos de “sociedade civilizada”. Desde as atrocidades aparentemente ingênuas, quanto as mais obscuras.

O Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos segue até domingo (18) em cidades da Baixada Santista. Ao todo, inclui em sua programação, 43 peças da Espanha (homenageada desta edição), Portugal e outros dez países da América. A programação completa, informações sobre locais e venda de ingressos estão disponíveis no site do festival.

*A convite do Sesc SP, o Gira SP realiza cobertura do Mirada com colaboração do jornalista Rafael Ventuna.


Que haré yo con esta espada? – Aproximación a la ley y al problema de la belleza
de Angélica Liddell
17 e 18 de setembro
Sábado e domingo, 18h
Sesc Pinheiros – Teatro Paulo Autran
R$ 12 a R$ 40

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