“Os Corvos” dançam até a morte no Sesc Pompeia

O fim nunca esteve tão próximo para a temporada de Os Corvos, que terá sessões somente até domingo (9) no Sesc Pompeia. No duo de Luis Arrieta e Luis Ferron, dois consagrados nomes da dança contemporânea, dançar a morte é uma poética e emocionante expressão da vitalidade.

Foto: Clarissa Lambert (Divulgação)

Foto: Clarissa Lambert (Divulgação)

O encontro destes “corpos-corvos sagrados” joga luz em um tema muito sensível e, por vezes, tabu em nossa sociedade: o fim da vida. Que pode ou não vir acompanhado do envelhecimento. Neste último caso, os artistas que sempre tiveram um papel renovador em suas carreiras, emitem uma mensagem clara sobre a necessidade de se dançar até a morte – ou seria até morrer?

A própria escolha do título revela bastante sobre a fonte de inspiração para a coreografia. Os corvos são aves necrófagas, ou seja, se alimentam de outros animais mortos. Durante as cenas, é notório como os bailarinos se nutrem de suas memórias – incluindo a perda de parentes queridos, além de trazer ao presente um passado desbotado, que dele quase somente sobram o preto e branco.

Embalados por composições clássicas, com interpretação ao vivo e sincronia irretocáveis de Pedro Assad, no piano de cauda, e de Thiago Vilela, no violoncelo, a dupla de corvos dançantes também percorre desde a sonoridade de matriz africana que embebeda Ferron aos nostálgicos acordes de bandoneon argentino de Arrieta. Sonoridades que, de certa forma, se tornaram uma marca em seus trabalhos individuais. Mas, que se fundem nesta peça que é considerada o primeiro movimento do projeto Diálogos Alados – Colóquios sobre a Morte.

É necessário ainda fazer um destaque para o projeto de iluminação assinado por Mauro Martorelli. São fachos de luz muito bem pontuados que rasgam a fúnebre escuridão, de onde surgem fantasmas vestidos pelo estilista Fause Haten e que tem uma contagem regressiva feita pela voz de Fátima Silva para concluírem sua partitura no palco.

Apesar do tema central ser a morte, a peça é intensa, poética, leve e muito sensível. Impossível estar diante dos dois “Luises” e não revisitar nossas melhores memórias. E sair do teatro com a convicção daquilo que deve ter inspirado o russo Igor Stravinsky a compor em 1913 A Sagração da Primavera, obra baseada em uma lenda onde uma jovem camponesa é oferecida em sacrifício para salvar seu povo. Para completar seu martírio, a jovem deve dançar até morrer para que o inverno acabe e a vida se renove na primavera.


Os Corvos
Luis Arrieta e Luis Ferron
30 de março a 9 de abril
Quintas a sábados, 21h; domingos, 19h
Sesc Pompeia
R$ 20
12 anos
60 min

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